domingo, 19 de março de 2017

Lideranças do Parque do Xingu foram à Brasília para denunciar graves problemas nas terras indígenas e tratar de outros temas


por Marina Zimmermann


Caciques do Xingu se deslocam a Brasília para denunciar desmatamento, 
mudanças climáticas, poluição, caos na saúde, conflitos territoriais, 
preocupação com a PEC 215 e o futuro do órgão indigenista, a FUNAI.


Na semana passada, entre os dia 14 e 17 de Março, vinte lideranças do Parque Indígena do Xingu, entre eles quatro caciques de grande destaque, Melobo Ypeng, Aritana Yawalapity, Afukaka Kuikuro e Kuiussi Kissedje, estiveram em Brasília com uma extensa agenda para conseguir encaminhar e obter respostas para os graves problemas que os povos indígenas daquela região enfrentam. Esta vinda partiu da iniciativa organizadora e mobilizadora do Cacique Kanato Yawalapity, que articulou uma extensa agenda contando com o apoio logístico da Associação Terra Indígena do Xingu (ATIX), Instituto Socioambiental (ISA) e Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI).

Foto: Marina Zimmermann
Durante a estadia na capital do país participaram de encontros com os Embaixadores da França, Alemanha, Holanda, Noruega;  com os ministros do Meio Ambiente, da Cultura da Educação e do Esporte; com o Secretário da Saúde, o Presidente da Funai, Toninho Costa; o Procurador da República, Felício Pontes Jr; o Ministério Público; a Senadora do Piauí, Regina Sousa e o Governador do DF, Rodrigo Rollemberg. As lideranças ainda visitaram o Hospital Universitário de Brasília (HUB).

O Parque Nacional do Xingu é um marco na História Brasileira, com o avanço dos não indígenas em direção à floresta amazônica, desmatando e construindo  estradas, os célebres irmãos Villas Boas conseguiram, num acordo sem precedentes, a homologação do Parque, que até hoje é referência no mundo no tocante a questões indigenistas. Muitas etnias tiveram que deixar seus territórios tradicionais, onde até hoje existem cemitérios e locais sagrados, para se deslocarem e ficarem a salvo no território demarcado para o Parque, pois a ameaça de vida era eminente.

Passados mais de 50 anos, o Parque Nacional do Xingu abriga cerca de 20 etnias com diferentes línguas indígenas faladas. Ao longo destes anos a sua população tem aumentado o que por si só já causaria uma diminuição dos recursos naturais para a subsistência de cada comunidade, além disso, os limites do parque estão sendo cada vez mais cercados por ruralistas com suas plantações de cereais, causando um efeito claustrofóbico e deixando os indígenas numa situação de aprisionamento, pois toda a mata que ajudaria a manter o ecossistema dentro do parque já foi praticamente dizimada. 

Foi denunciado o uso abusivo de agrotóxicos através da pulverização aérea, causando a contaminação dos rios e trazendo inúmeros problemas de saúde para as comunidades que vivem na fronteira com essas grandes plantações de soja e milho, levando à morte de vários animais principalmente os peixes. Foi relatado que, após a passagem dos aviões, centenas de peixes aparecem boiando nas águas dos rios. Com isso existe uma grande preocupação por parte destas lideranças sobre a qualidade dessas águas, sendo uma de suas exigências a realização de análises para avaliar a situação da água dos rios do Xingu. Além de toda esta problemática, quando o parque foi delineado, as nascentes dos rios não ficaram dentro dos limites do parque o que preocupa os Caciques ainda mais. Existem também sérios problemas de assoreamento devido à construção de barragens em todos os principais rios do Xingu, como a construção da monstruosa Barragem de Belo Monte, que deixou um rastro de destruição inundando as comunidades situadas à montante e secando os rios à jusante deste empreendimento.

São também preocupações dos caciques, novos empreendimentos de mineração no Xingu, como a canadense Belo Sun, que teriam um impacto desastroso para o meio ambiente e a saúde dos povos indígenas,  pois assim como na Amazônia Peruana onde existe a extração de ouro, os metais pesados, como mercúrio, são despejados para os rios, gerando graves problemas de saúde na população.

Dados recentes mostram que existe uma elevação acima de 2ºC no Xingu, sendo considerada a região mais quente da América. Essa temperatura elevada se deve, além do desmatamento, às constantes queimadas que acontecem, sendo muitas vezes impossível acionar meios para apagar as chamas que destroem a mata.  Tudo isto leva a uma mudança drástica do meio ambiente, que antes era rico em recursos, deixando as comunidades indígenas numa situação precária, como na aldeia Yawalapity, onde sempre se plantou e colheu mandioca, este ano não houve colheita e eles se viram obrigados a comprar polvilho na cidade mais próxima, onde precisam fazer um trajeto de barco estimado em 12h de duração.

São muitos os problemas na saúde relatados devido à escassez de recursos, à exposição aos agrotóxicos, à introdução de alimentos estranhos à sua cultura e à falta de recurso das estruturas responsáveis, que deixam as comunidades Indígenas do Xingu numa situação de extrema precariedade.

Foi reivindicado também que as pistas de pouso existentes em algumas comunidades pudessem ser reconhecidas e legalizadas para facilitar o ir e vir e permitir que haja a possibilidade de socorro via aérea que, até a data, continua em situação irregular. Foram também pedidos apoios para socorro via transportes hidroviários, na forma de barco-ambulância.

Terras indígenas, como a Terra Jatobá e Naruvuto, enfrentam longos processos de embate com fazendeiros, que se recusam a acatar a homologação dessas terras, face a falta de repasse das respectivas indenizações por parte da União, sendo que estas terras já estão completamente desmatadas e sendo utilizadas ilegalmente para o plantio de soja e milho, como é o caso da Fazenda Três Coqueiros.

As lideranças indígenas se mostraram muito preocupadas com o constante ataque e desestruturação da FUNAI, que consideram já ter visto melhores dias, se manifestam preocupados quanto a possível alteração da constituição de 1988 e à PEC 215, assim como a municipalização da Saúde Indígena. Denunciam ainda a falta de transparência de algumas ONGs e Prefeituras que captam recursos para projetos no Xingu, porém esse montante e a qualidade dos projetos se revelam sempre inferiores aos valores projetados.

As demandas e relatos foram ouvidos com alguma atenção por parte dos órgãos responsáveis, resta saber agora a celeridade dos encaminhamentos e a atuação das entidades competentes para apurar responsabilidades e dar respostas às denúncias e reivindicações feitas pelas lideranças do Parque do Xingu.


Veja mais fotos da estadia das lideranças em Brasília: 






Texto e fotos por Marina Zimmermann para o Ceará no Clima


Edição: Janete Melo - Observatório Socioambiental

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