sábado, 9 de novembro de 2013

Até quando vamos esperar uma mega chacina indígena? Os mortos "isoladamente" não valem nada? Qual o papel da mídia? E o seu?



por Alceu Luís Castilho


Três Tupinambá foram assassinados na Bahia. Em região de conflito com "produtores rurais", diz o texto da Folha: "Índios são mortos em região de conflito no sul da Bahia". Ela que abriga semanalmente artigo da senadora Kátia Abreu.

Pouco mudou desde a invasão do país pelos portugueses, em 1500. E pouco mudou desde Pero Vaz de Caminha. Com os escribas a serviço do poder. Os jornais cumprem diariamente a função de escantear os conflitos agrários. Uma das características centrais deste país. Para quem tiver olhos para ler e um mínimo de aversão à cumplicidade. Esta que ronda cada brasileiro indiferente.

Três assassinados. Mais três. Esperaremos uma chacina, um caso com 10 ou 20 assassinados, e com a consequente repercussão internacional, para darmos valor a esse tipo de notícia?

Eu as divulgo quase diariamente, em minhas páginas: Outro Brasil, Partido da Terra. Ainda há pouco, aqui mesmo no meu perfil, publicava notícia sobre atentado contra índios Guarani, em plena capital econômica do país. Quantos compartilharam, quantos perderam alguns segundos com isso?

Logo em seguida fiquei sabendo desses assassinatos na Bahia. Atenção: eles não são exceção. Não são. Mas isso não pode implicar embotamento. Esvaziamento da capacidade de indignação, falta de atitude. Como costuma ocorrer nestas terras virtuais - à exceção de alguns espasmos de cidadania.

Sinto com dor um imenso desprezo da maioria dos que estão lendo por esse tipo de notícia. Parece que não é com a gente, né? Mas é também com a nossa assinatura, caros colegas, leitores, amigos. Com a nossa mesquinharia, com os nossos votos e com a nossa falta de horizontes.

Prestem atenção numa coisa: o Rei do Camarote é fichinha. Apenas um bobalhão. Não possui centralidade nenhuma em nossa democracia sórdida. O Brasil ainda é movido - politicamente, inclusive - pelos Reis do Campo, pelos Sultões do Agronegócio. Eles têm largo espaço nos jornais e revistas - dá status.

Eles escarnecem toda semana de suas vítimas, no Congresso e nas Assembleias, com projetos de lei que restringem ainda mais o direito de indígenas, camponeses, trabalhadores rurais.

A cobertura do agronegócio é vergonhosa, pró-empresas, a favor de um modelo que nos envenena, que arrebenta biomas, desmata. E que expulsa indígenas e camponeses. Dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço. E a imprensa favorece um desses corpos (o espaço do lucro) em detrimento da maioria dos brasileiros.

Enquanto isso, seguimos com nossas piadinhas. Com nossa suposta aversão aos "camarotes". Nós que nos privatizamos tanto.

Parte significativa de nossos camarotes é desenhada com arames farpados. E eles estão manchados de sangue. Com séculos de grilagem e 500 anos de escárnio - que não sairão na capa da Vejinha.

Poucos perceberam que a Kátia Abreu (PMDB-TO) e o deputado Luis Carlos Heinze (PP-RS), os ruralistas mais agressivos, são personagens 800 vezes mais importantes que o Bobalhão do Camarote.

Está mais do que na hora de cada um decidir de que lado está. Dos que excluem e matam ou dos que brigam por um país diferente. Com um mínimo de democracia (mais que isso que temos) e um mínimo de humanidade.

Com menos omissão e menos cinismo. Menos distração e mais atitude.


Alceu Luís Castilho é jornalista formado pela ECA-USP em 1994. Autor do livro "Partido da Terra - como os políticos conquistam o território brasileiro" (Editora Contexto, 2012). Estudante de Geografia na USP.



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