segunda-feira, 8 de abril de 2013

Não existe verdade absoluta na história da Guerrilha do Araguaia - por *Merces Castro



O Exército data a morte do Custódio (Lauro a 15.02.1972 já a população...) é por isto que precisamos de pesquisadores persistentes e dedicados a verdade doa a quem doer. Se faz necessário um dossiê de cada guerrilheiro, pois se não der para fazer o reconhecimento por exame de DNA poderá ser feito por informações pré e pós-morte esboço de um dossiê.

A informação da cova onde estaria Lauro chegou a meu conhecimento em julho de 2009 e foi prontamente levada ao conhecimento do grupo governamental denominado GTT. Desde então, só nos resta esperar pela boa-vontade desses homens. Em julho de 2012 o achado completará três anos.


CUSTÓDIO SARAIVA NETO  (Lauro, Pequim, Ceará)
Filiação: Dário Saraiva Leão e Hilda Quaresma Saraiva Leão.
Nascido em 05.04.52 – Fortaleza/CE
Secundarista, chegou à região do Araguaia por volta de 1970, aos 18 anos de idade. Pertenceu ao Destacamento “A”, morando na Vila Metade depois destacamento B Caianos. Identificado pelos militares somente em 1972, era moreno, tinha cerca de 1,75m, cabelos pretos e ondulados.

Estava com HELENIRA (Fátima) quando esta foi morta. Foi citado no depoimento de DOWER MORAIS (Domingos) o qual afirmou que numa reunião realizada no Colégio Castelo Branco, em Fortaleza/CE, “Lauro de tal” teria atirado em um militar para defendê-lo. Já conhecia Helenira e UIRASSU (Batista) da Bahia para onde mudou-se  após o incidente de Fortaleza.

DADOS SOBRE SUA MORTE:
Militares:
Relatório da Marinha de 15.02.1974 (ACE – 54730/86) – Custódio Saraiva Neto – Lauro – morto em 15 FEV 74 – PRG 4352/74-ACE-72067/74.

Diário do Velho Mário:
29.09.72 -  Os co estão procurando organizar uma emboscada contra os milicos. Nesse sentido, deixaram dois co, Lauro e Fátima, para observar um caminho. Quando estes cumpriam sua missão, surgiu uma tropa de burros dirigida pelo Edith, escoltada por 3 soldados. Ao se aproximar do local onde estavam os observadores, os soldados se dividiram em dois grupos para investigar os barrancos. Um soldado dirigiu-se para o local onde se achavam nossos companheiros.. Foi em direção do Lauro. Este, inexplicavelmente, não estava com a arma engatilhada e não a fez funcionar. Neste hora, a Fátima moveu-se, então o milico atirou contra ela, dando as costas para o Lauro que ainda assim deixou de atirar (nem apelou para o revólver). Nosso camarada afobou-se e resolveu fugir. Foi alvo de uma saraivada de balas. No loca deixou uma mochila que, além dos pertences pessoais, continha mais de 150 balas de 44 e um rádio.

História oral
No dia 20.09.72, Fátima (Helenira), Lauro (Custódio), Zé Carlos (André Grabois), Nunes (Divino) e PE (Olímpio) vão a então fazenda SÃO JOSÉ cujo dono era um antigo apoio do destacamento “A” chamado Carlos Holanda e Olímpio era seu gerente. Pediram-lhe para comprar mantimentos, mas este mandou comunicar à força. No dia 25 chegam, à Fazenda PAU PRETO, propriedade de Evandro Azevedo, duas equipes militares com 42 homens. O mesmo era um apoio “consciente” da luta guerrilheira e por isso negou a estada da força sendo preso pelo capitão Curió e mandado para Marabá.

Ficou, assim, a fazenda  PAU PRETO nas mãos da força militar e do gerente Zé Nogueira. No dia 26 partiram para fazenda SÃO JOSÉ e ali se esconderam. No dia 28 apenas uma equipe se retira da propriedade, tendo a outra permanecido escondida no local. Os militares queriam iludir os guerrilheiros, pois sabiam que estavam sendo observados por informantes, como de fato estavam.

Iludidos, no dia 29.09.72 os guerrilheiros encostaram na fazenda por volta do meio dia para buscar a encomenda e não ao anoitecer, conforme o combinado. Fátima que era a mais íntima dos peões, como de costume vinha à frente de seus companheiros. Os outros se mantiveram na retaguarda fazendo a segurança. Surpreendidos, os três soldados que estavam de guarda instintivamente dispararam suas armas contra Fátima atingindo-a superficialmente.

Pedro Gil, Nunes e Zé Carlos fugiram embrenhando-se na mata. Lauro que fazia a segurança na entrada da mata e portava uma submetralhadora INA(ISSO NÃO FUNCIONA) assim é chamada por policiais até hoje, acionou sua arma. Após a primeira rajada, a arma aqueceu o mecanismo e “engasgou”. O desespero tomou conta de Lauro que agora só dispunha do revolver. Fátima, mesmo caída, também disparava seu 38.

O restante da equipe militar saiu para a varanda da casa e começou a atirar varrendo com seus FAL calibre 7,62 a mata de onde partiam os tiros de Lauro e presumiam haver outros guerrilheiros. Fátima foi atingida por cerca de 80 tiros e seu corpo ficou de lado estendido no pátio. Os tiros cessaram, mas os militares não seguiram para a mata porque temiam ser emboscados, preferiram se proteger de um possível contra-ataque que não veio. Na refrega, um sargento foi morto e um soldado ferido no braço.

A outra equipe militar, que iludira os guerrilheiros e era comandada por Curió, estava acampada na fazenda PAU PRETO  a 6 km de distancia. Com ela estava preso e algemado um guerrilheiro alto, de cabelos encaracolados e barba rala. Ninguém  podia chegar perto nem ele queria comunicar-se. Um dos peões de Carlos Holanda, em pânico e a mando de Olímpio, veio avisar Curió que a fazenda S. José tinha sido invadida por terroristas causando grande alvoroço e gritaria na equipe.

Curió mandou que os homens se perfilassem, mas tinha soldado que não conseguia atender aos comandos. Sequer tinha forças para segurar a arma tal o nível de tremedeira no corpo, irritando profundamente o capitão que os xingava dos nomes mais terríveis. Por fim, a equipe deslocou-se para a fazenda Pau Preto levando somente o indispensável. Os mantimentos e munição seguiram logo atrás em animais guiados pelo próprio Zé Nogueira e outro peão encarregado de trazer os animais de volta.

Durante o deslocamento de aproximadamente uma hora, ainda se ouviram muitos disparos. Na São José, havia um misto de medo e comemoração. Fátima ainda se encontrava na mesma posição, cercada por soldados e o sargento Fonseca, todo sujo de sangue, a comentar: “Isso lá é moça!”. Puseram o corpo em lombo de burro e o transportaram para um lugar denominado  Oito Barracas, não muito distante, onde o enterraram em cova rasa.

De volta à Pau Preto, Zé Nogueira mandou matar um novilho, chamando a atenção de todos o fato de que o sargento Fonseca ainda estava sujo de sangue. Quando Evandro Azevedo foi liberado, por ingerências do então prefeito de Marabá, seu sogro, revoltou-se com o churrasco oferecido aos bandidos (militares) descontando o preço do novilho do salário de Zé Nogueira.

Testemunhas primárias:
Dados da história oral, vídeos e depoimentos gravados na região. Lauro teria sido preso no final de março, início de abril de 1974, tomando-se como base as estações do ano e a colheita da castanha. Um único documento militar autentica a narrativa dos ouvidos.

Dez dias após sua prisão, Lauro tentou fugir da base Bacaba sendo alvejado na altura da cintura e nas pernas. Ferido, dias depois foi levado para um helicóptero juntamente com uma “companheira” não identificada. Foi visto na base da Consolação, onde era chamado de Ceará, e onde os ferimentos e a cara fechada chamaram muito a atenção. Segundo um ex-guia do exército, Lauro foi executado com um tiro na cabeça juntamente com a companheira na fazenda Matrinxã, hoje Rainha do Araguaia, conhecido campo de execução.

Em 2009, foi localizado e plotado, por GPS, um ponto onde Lauro e a companheira teriam sido enterrados. A este local chamei de Três Covas, porque segundo informes posteriores ali teriam sido inumados Lauro e a companheira, numa cova única, e mais tarde dois outros “terroristas” teriam sido também ali enterrados, muito próximos, mas em covas diferentes. Para completar essas referências, em 2011 em conversa informal na 1ª. Vara Federal de Brasília, o indivíduo Tião Malvadeza , fala do mesmo ponto afirmando que lá estariam enterrados Lauro e Lia em uma só cova, e ao lado estariam “Pedro Carretel” e outro que não lembrava o nome.

Dados da arcada dentária antes de ir para o Araguaia são importantes. Dados antropomédicos dos guerrilheiros também são importantes. Segundo dados colhidos e após cruzamentos de informações, chegou-se à uma conclusão preliminar onde Lauro foi atingido quando tentou fugir da Bacaba (no quadril e coxa) e quando foi executado na Matrinxã (na cabeça).
       
*Merces Castro é advogada, militante e irmã do desaparecido político Antônio Teodoro de Castro (Raul)

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